PCDs — Melhorando o relacionamento no ambiente de trabalho.

Renan Lima
6 min readJun 18, 2021

Eu nasci com uma deficiência: a perda auditiva. Minha infância e juventude passei sem o uso de aparelho auditivo, pois mesmo eu não possuía uma percepção tão profunda sobre ela. Com um grau moderado ainda conseguia me comunicar, às vezes com uma certa dificuldade, mas conseguia muitas vezes me apoiar na leitura labial.

Lembro-me da primeira vez que coloquei um aparelho auditivo aos 22 anos. Foi o dia em que percebi que o dia a dia era composto por inúmeras outras frequências sonoras e não apenas por um aglomerado de sons abafados que ora se confundiam com vozes, ora com sussurros desconhecidos.

Era um dia chuvoso em Manaus, minha terra natal. Pude ouvir a sinfonia da chuva caindo e o cintilar das gotas batendo em algo metálico do lado de fora. O caminho de volta pra casa foi marcante. Os muitos sons que compunham a melodia da cidade iam surgindo no meu ouvido, muitos dos quais eu nem sabia que existiam!

Durante os anos fui adquirindo percepções e trabalhando-as para que eu pudesse melhorar meu relacionamento com o mundo, as quais eu vou tentar enumerar abaixo:

1- Limitações.

A grande maioria das pessoas que portam algum tipo de deficiência tem dificuldades em falar sobre suas limitações. Isso porque durante a infância muitos sofrem bullying, ouvem piadas de cunho pejorativo, sofrem preconceitos de diversas formas, passam por pressões familiares e vivenciam uma diversidade de outras coisas, o que gera na Pessoa com deficiência (PCD) um certo receio em falar sobre suas limitações.
Já vi PCD’s se irritarem ao ouvirem uma simples pergunta sobre sua rotina, outras, tentarem esconder seus problemas, algumas outras, fingirem não possuir quaisquer limitações. Todas essas pessoas lidam com uma questão em comum. Seus pontos fracos são baseados em um problema maior, que vem a ser o de não se aceitarem como são. Esse é, no meu ponto de vista, a essência da problemática.

2- Suposições e ZERO diálogo

Nesses anos de mercado tive a oportunidade de observar como diversas empresas lidam com o tema. Minha percepção no geral é que elas tentam, mas ainda existe um quase-vazio na comunicação entre o deficiente e a empresa em si. Esse espaço é sempre preenchido por uma massa cinzenta de percepções e inseguranças dos dois lados.
Não é raro ver empresas que contratam PCD’s apenas para cumprirem cotas estabelecidas por lei, e os deixam estagnados sem chances de crescimento por anos. Péssimo!
Vejo também empresas com tanto receio em lidar com o tema que por vezes super dimensionam as necessidades da PCD, a ponto de se cogitar aquisições de softwares caros ou soluções mirabolantes para atender a uma necessidade específica de uma PCD. Isso é ruim? Claro que não! Porém pode ser uma decisão de contorno precipitada.
O quero dizer é que ambos os cenários são um produto de uma mistureba esquisita de suposições e ZERO diálogo. O relacionamento de ambas as partes é recheado de suposições. A empresa supõe que é A, o deficiente supõe que é B, mas ninguém se expressa.

3- O mundo não se importa

Talvez seja uma frase forte, mas permita-me jogar uma verdade sobre a mesa: O Mundo não se importa! Ou pelo menos ainda não se importa o suficiente com PCD’s.
Não me refiro aqui a pessoas em específico, mas ao modo como o mundo funciona. O mercado tem seus prazos, suas pressões, suas regras muito bem estabelecidas e ele não tem piedade de nada que encontra em seu caminho. Essa é uma realidade que se impõe para todos, seja PCD ou não, e que consome qualquer outra realidade ou necessidade paralela. Absolutamente não podemos fugir disso, pelo menos não enquanto tivermos as mesmas engrenagens do sistema comercial.
É por causa dessa realidade implícita do dia a dia de trabalho que as PCD’s e as empresas não encontraram ainda um elo de harmonia.
Explico:
PCD’s possuem em sua vasta maioria uma velocidade de entrega mais lenta. Mercado possui alta demanda e exigência de prazo curto, via de regra. A matemática não fecha.
Obviamente estou sendo extremamente genérico, pois isso vem a depender do tipo e do grau de deficiência envolvida.

4- A pessoas se importam — Como lidar com o PCD?

Uma outra realidade que se impõe no sentido oposto é que as pessoas não portadoras de deficiência, sim, se importam com o tema. Em menor ou maior escala, elas se importam pelo tema. Diante dessa compreensão, deixo um palpite às empresas e pessoas sem deficiência:
As pessoas com limitações nem sempre precisam de uma solução mirabolante para se sentirem confortáveis, elas precisam, em primeiro lugar, se sentirem confortáveis para falarem de suas limitações. Eu diria que isso é um processo de construção entre a empresa e a PCD. É uma mudança paulatina até que se torne uma troca natural de experiências entre ambas as partes.

No universo de pessoas com deficiência não existe uma matemática exata para lidar com a vida. Uns possuem mais dificuldades em lidar com seus problemas, outros menos ou nenhuma. Essa multiplicidade ressoa no não PCD como insegurança. Baseado nisso, quero pontuar aqui algumas coisas a você, não PCD:

1 - Não se sinta culpado diante de um colega com deficiência.

2 - Você não possui obrigação de saber sobre como uma PCD lida com a deficiência dela.

3- Não se sinta culpado quando eventualmente atropelar o ritmo desse colega. As regras do mundo vão se impor para todos nós uma hora ou outra.

Tudo o que você precisa fazer é construir sempre uma ponte de diálogo em que a PCD se sinta confortável em falar sobre suas limitações.

5- As PCD’s se importam — Como lidar com o Mundo?

Não sou o dono da verdade. Longe de mim. O que tento trazer nesses pontos são sempre percepções que foram sendo construídas ao longo da minha vida, sendo eu portador de perda auditiva.

Tive uma fase crítica, na qual não sabia lidar com minha deficiência. Lembro-me que em meu primeiro emprego tive muitos problemas de comunicação por conta dela. Sentia-me isolado mesmo num setor lotado de pessoas. Colegas da minha mesa saiam diariamente para almoçar juntos, eu me limitava a comer sozinho ou a encontrar alguns poucos colegas, também PCD’s. Era isso.

Não bastasse o trabalho, minha dificuldade com a comunicação se replicava em praticamente todos os âmbitos da minha vida, de forma que em um dado momento me vi totalmente desmotivado e inseguro, pois não conseguia acompanhar reuniões, conferências, não me sentia seguro em falar, por exemplo, que não havia compreendido ainda alguma informação a mim confiada, mesmo depois de ela ter sido repetida por algum colega. Sentia-me profundamente decepcionado comigo mesmo, pois tinha o sentimento que ficaria estagnado naquele mesmo momento da carreira.

Minha grande carta coringa foi minha esposa. Aqui faço questão de dar todos os créditos a ela dessa grande mudança que eu protagonizei em minha vida. Por ser psicóloga, ela soube me mostrar a direção que eu deveria seguir para encontrar o contorno dessa via.
Sendo PCD tudo o que eu precisei compreender para mudar meu relacionamento com o mundo foi que:

1— Você, PCD, precisa ser maduro para entender quem você é. Aceite-se e seja tolerante com sua deficiência.

2 — Você não pode culpar as pessoas por não saberem sobre sua deficiência e como você lida com ela. Antes, fale sobre ela!

3 — Você precisa sobretudo deixar sempre claro a todos como suas limitações impactam no seu ritmo de trabalho. Seja sempre transparente.

4 — Você, querido PCD, esteja preparado para muitas vezes ser tratorado pelo mundo. Ele não terá dó de você! Mas não se culpe e nem culpe seus colegas por isso. Entenda a dura realidade que se impõe e repita o item 2

Esse artigo foi fruto de inúmeras situações que me trouxeram aprendizados, alguns deles, dolorosos. Afirmo aqui mais uma vez que não sou dono da verdade e muito menos tenho qualificação profissional para falar das engrenagens mentais que todos temos, mas acredito que coletei alguns ingrediente para uma observação aguçada ao longo da vida.

Você que leu até aqui, seja PCD ou não PCD, não considere o texto escrito ser uma verdade absoluta, todavia aceite-o como um convite à uma reflexão sobre dois fatos incontestáveis:

1- Existe um abismo que ainda separa os universos de PCD’s e empresas.

2- O abismo está diminuindo.

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